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Cardeal Cupich: abusos, reforma estrutural e jurídica na Igreja arraigada na visão colegial

"Devemos compreender que o nosso encontro desses dias é um exercício de colegialidade. A Igreja, como mãe amorosa, deve continuamente se abrir para a realidade angustiante de crianças cujas feridas nunca poderão ser curadas", disse o purpurado estadunidense.

Vatican News | Sexta, 22 Fevereiro 2019 09:18
Cardeal Cupich: abusos, reforma estrutural e jurídica na Igreja arraigada na visão colegial Vatican Media

O arcebispo de Chicago, cardeal Blase Cupich, falou sobre o tema “Sinodalidade: corresponsáveis”, na manhã desta sexta-feira (22/02), no encontro sobre a “A proteção dos menores na Igreja” em andamento, na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano, com todos os presidentes das Conferências episcopais.

“Devemos compreender que o nosso encontro desses dias é um exercício de colegialidade. Estamos aqui, como episcopado universal, numa união afetiva e substancial com o sucessor de Pedro, para discernir através de um diálogo vivo onde o nosso ministério como sucessores dos apóstolos nos chama a enfrentar de maneira adequada o escândalo do abuso sexual por parte do clero que feriu tantos inocentes”, disse o purpurado em seu discurso.

Segundo o cardeal Cupich, é preciso considerar esse desafio “à luz da sinodalidade, aprofundando com toda a Igreja os aspectos estruturais, jurídicos e institucionais do prestar contas. Entende-se por sinodalidade a participação de todos os batizados nos vários níveis, paróquias, dioceseses, realidades nacionais e regionais, através do discernimento e uma reforma que penetra em toda a Igreja. Um discernimento pungente, vital para a Igreja neste momento, dará lugar a elementos de verdade, penitência e renovação das culturas, essencias para cumprir o mandado de proteger os jovens dentro da Igreja, e por sua vez, dentro da sociedade”.  

Provocar na Igreja uma ação global

Para isso, o arcebispo de Chicago afirmou a necessidade de “buscar a conversão de homens e mulheres em toda a Igreja, pais e sacerdotes, catequistas e religiosos, párocos e bispos, e a conversão das culturas eclesiais em todos os continentes. Somente uma visão sinodal, fundada no discernimento, na conversão e na reforma em todos os níveis, pode provocar na Igreja uma ação global em defesa dos mais vulneráveis entre nós, para os quais a graça de Deus nos chama.”

A seguir, o cardeal Cupich contou um fato que ocorreu sessenta anos atrás, com uma mãe que perdeu a filha de nove anos no incêndio da Escola Nossa Senhora dos Anjos, em Chicago, que matou noventa e duas crianças e três religiosas. A mãe da menina, que hoje tem 95 anos, disse ao purpurado, numa ocasião, que a dor pela perda da filha é ainda muito grande, como no dia em que a menina morreu. Ela mostrou ao cardeal Cupich uma foto com a imagem de sua filha. Segurava a foto na mão como algo precioso. “Manteve essa imagem sagrada por sessenta anos, desde o dia do funeral de sua filha”, sublinhou ele.

Esta história comovente de uma mãe em luto, nos coloca em contato, num nível profundamente humano, com o vínculo sagrado que um pai ou uma mãe tem com o seu filho.

“Acredito que este espaço sagrado da vida familiar deve ser o ponto de referência no qual encontrar a nossa motivação, nesses dias em que estamos empenhados na construção de uma cultura do prestar contas, com estruturas adequadas para modificar radicalmente a nossa abordagem a fim de salvaguardar os menores.”

Segundo o cardeal estadunidense, a Igreja deve se tornar como aquela mãe amorosa e entristecida que perdeu a filha no incêndio na escola, em Chicago. “Uma Igreja mortificada no sofrimento, consoladora no amor, constante em indicar a divina ternura de Deus em meio aos sofrimentos de desolação naqueles que foram esmagados pelo abuso do clero.”

“Para uma Igreja que procura ser mãe amorosa diante do abuso sexual por parte do clero, quatro são as orientações, arraigadas na sinodalidade, que devem moldar toda reforma estrutural, jurídica e institucional, projetadas para enfrentar o enorme desafio que a realidade dos abusos sexuais por parte do clero representa neste momento”, disse ainda o cardeal Cupich.

Escuta radical

A primeira orientaçao é a escuta radical. “Uma disposição perene a ouvir totalmente, a fim de entender a experiência degradante daqueles que foram abusados sexualmente pelo clero. Compreendemos o pedido do Santo Padre de nos preparar para esse encontro, entrando pessoalmente nas experiências dos sobreviventes através desse encontro”, sublinhou o purpurado.

“A Igreja, como mãe amorosa, deve continuamente se abrir para a realidade angustiante de crianças cujas feridas nunca poderão ser curadas. A nossa escuta não pode ser passiva, na expectativa de que os abusados encontrem encontrem um meio de nos alcançar. Pelo contrário, a nossa escuta deve ser ativa, procurando aqueles que foram feridos para tentar ajudá-los. A nossa escuta deve ter o desejo de enfrentar os erros graves e insensíveis do passado de alguns bispos e superiores religiosos em enfrentar os casos de abuso sexual do clero, além do discernimento para reconhecer a responsabilidade nessas falhas maciças.”

Testemunho dos leigos

A segunda orientação é o testemunho dos leigos. “Afirmar que todo membro da Igreja tem um papel essencial na eliminação dessa realidade horrível de abuso sexual por parte do clero. Na maioria das vezes, é o testemunho dos leigos, especialmente mães e pais com grande amor pela Igreja, que sublinhou de uma forma comovente e incisiva que a comissão, o encobrimento, a tolerância do clero e o abuso sexual são gravemente incompatíveis com a essência e o significado da Igreja”, disse ainda o arcebispo de Chicago.

“Pais e mães nos chamaram a prestar contas, simplesmente porque não conseguem entender como nós, bispos religiosos e superiores religiosos, fomos muitas vezes cegos diante da dimensão e danos do abuso sexual de menores. Os pais estão testemunhando a dupla realidade que deve ser perseguida hoje na Igreja: um esforço incessante para erradicar os abusos sexuais do clero e a rejeição da cultura clerical que muitas vezes gerou esse abuso.”

Colegialidade

A terceira orientação para o trabalho de reforma e orientação é colegialidade. “Os nossos esforços para uma reforma estrutural e jurídica na Igreja devem estar enraizados numa visão profundamente colegial.”

“Neste momento histórico, estamos reunidos aqui porque o Santo Padre pediu fortemente um impulso de reforma, para que a Igreja possa assumir sua responsabilidade de proteger os jovens e exercer seu papel de piedade num mundo que conhece de maneira muito trágica a realidade do abuso sexual.”

Acompanhamento

O quarto princípio da orientação, essencial para as estruturas efetivas de prestação de contas dos  abusos sexuais do clero é o acompanhamento.

“Se a Igreja realmente quer abraçar as vítimas que sobreviveram aos abusos clericais como mãe amorosa, então toda estrutura de responsabilidade deve incluir solidariedade e acompanhamento. O acompanhamento envolve uma tentativa sincera de entender a experiência e a viagem espiritual do outro. Portanto, as estruturas de denúncia, investigação e avaliação das afirmações de abuso devem sempre ser elaboradas e avaliadas, entendendo o que os sobreviventes experimentam quando se aproximam da Igreja em buscam justiça.”