Bartolomeu I: "O dom das relíquias de Pedro é um passo crucial em direção à unidade"

Entrevista com o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, que fala de sua surpresa pelo inesperado presente recebido de Francisco e indica como única via para a evangelização a do serviço ao mundo e fala dos incêndios na Amazônia, explicando as razões espirituais e teológicas do compromisso com o ambiente.

Vatican News | Sábado, 14 Setembro 2019 14:18
Bartolomeu I: "O dom das relíquias de Pedro é um passo crucial em direção à unidade" Vatican Media

O presente das relíquias de Pedro que Francisco quis dar ao sucessor de Santo André, representa "um novo marco" e um "passo crucial" no caminho em direção à unidade dos cristãos. É o que afirma às  vésperas de sua viagem a Roma o Patriarca Ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I, nesta entrevista ao Vatican News e L'Osservatore Romano, onde falou da surpresa do inesperado presente. Bartolomeu indica como caminho-mestre para a evangelização o caminho do serviço ao mundo, e ao responder a uma pergunta sobre o próximo Sínodo dedicado à Amazônia, explica as razões espirituais e teológicas do empenho em favor do ambiente, ameaçado de destruição.

Santidade, qual foi sua primeira reação quando recebeu do Papa Francisco o presente do relicário contendo os 9 fragmentos de ossos considerados como sendo do Apóstolo Pedro?

"Devemos admitir que, no começo, ficamos muito surpresos ao saber que Sua Santidade, nosso irmão Papa Francisco, estava nos presenteando com tal tesouro. Este gesto surpreendeu a muitos. Nem mesmo a delegação do Patriarcado Ecumênico que estava em Roma para a festa patronal de nossa Igreja irmã esperava isso. Geralmente esse tipo de evento é objeto de discussões protocolares. Não foi assim desta vez. Apreciamos com toda sinceridade este dom, que é a manifestação de uma espontaneidade, um sinal do verdadeiro amor fraterno que hoje une católicos e ortodoxos".

Qual é o significado desse gesto?

"Podemos distinguir pelo menos três significados profundos. Antes de tudo, a chegada das relíquias do santo apóstolo Pedro à sede do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla é uma bênção por si só. São Pedro é uma figura central de santidade porque é apostólico e, em muitos aspectos próximo de todos os cristãos: ele é o apóstolo da confissão, mas ao mesmo tempo o da negação. São Pedro é testemunha da ressurreição, um sinal de esperança para todos os cristãos. O segundo significado que deveria ser recordado é o vínculo de fraternidade que une São Pedro e Santo André, padroeiro do Patriarcado Ecumênico. Do mesmo modo que os dois apóstolos são irmãos segundo a carne, assim as nossas Igrejas de Roma e Constantinopla são irmãs. Por fim, o terceiro significado é mais ecumênico e refere-se à busca da unidade e da comunhão. Esse presente de nosso irmão Papa Francisco é um novo marco no caminho da aproximação, um passo crucial no diálogo de caridade iniciado há mais de cinquenta anos por nossos predecessores. Um diálogo que hoje é colocado sob a bênção do santo apóstolo Pedro. Recordemo-nos somente destas palavras do apóstolo que, em nosso contexto atual, assumem uma dimensão muito particular: "Amai-vos intensamente uns aos outros, do íntimo do coração, renascidos não por uma semente corruptível, mas incorruptível, pela palavra do Deus vivo que permanece eternamente". (1 Pedro 1, 22)

Há mais de 50 anos, o seu antecessor Atenágoras deu a São Paulo VI um ícone representando os irmãos Pedro e Andrea que se abraçam. O Papa Francisco define isso como um "sinal profético da restauração da comunhão visível entre nossas Igrejas". Em que ponto está este caminho?

"É uma ótima pergunta. Em que ponto estamos? Muito caminho foi percorrido em mais de cinquenta anos. No entanto, ainda temos muito trabalho a fazer para restabelecer o vínculo de comunhão que continua a nos fazer sofrer como a negação da perfeita fraternidade a que aspiramos. A divisão dos cristãos é um escândalo para a Igreja, porque não há verdadeiro testemunho do Evangelho, exceto na unidade dos membros do Corpo de Cristo. Como já mencionado, o presente das relíquias de São Pedro à nossa Igreja da parte de nosso irmão Papa Francisco, é um gesto poderoso que demonstra o compromisso da Igreja de Roma no serviço da unidade dos cristãos. De uma maneira muito simbólica, é um reflexo quase perfeito do ícone citado em sua pergunta. Os irmãos Pedro e André se abraçam misticamente mais uma vez para nos ensinar a viver o vínculo da fraternidade ecumênica à qual estamos assim apegados. No caminho da unidade, são necessários duas estradas. A primeira é definida como o diálogo da caridade, feita de todos aqueles gestos que nos aproximaram após o abraço trocado em Jerusalém em 1964 entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecumênico Atenágoras. A segunda é chamada de diálogo da verdade. É constituída pelos órgãos de diálogo teológico que nos permitem considerar as tradições comuns sobre as quais construir nosso futuro de comunhão, estudando com honestidade e respeitando as questões que ainda nos dividem. A estas duas estradas, deveríamos acrescentar uma terceira, profética. É aquilo que assistimos com este presente inesperado”.

O presente das relíquias foi acompanhado por uma carta do Papa divulgada ontem, 13 de setembro, dia em que a Igreja latina celebra a memória de seu antecessor São João Crisóstomo. Um Padre da Igreja venerado por católicos e ortodoxos, que em uma de suas famosas homilias disse: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o negligencie quando estiver nu. Não o honre aqui no templo com tecidos de seda, para depois negligenciá-lo lá fora, onde padece de frio e nudez”. Como se proclama o Evangelho hoje a partir dessas palavras?

"Acreditamos que a experiência litúrgica na qual se baseia nossa vida espiritual como cristãos, não deve nos separar de nosso esforço no mundo e em favor do mundo. Como você certamente sabe, no final da Divina Liturgia dizemos: "Vamos em paz". Este convite não somente nos chama a manter a paz que nos foi dada, mas também a compartilhá-la com o resto do mundo. Quando seguimos São Paulo e confessamos a Igreja como o Corpo de Cristo, devemos recordar que não há outra maneira de cumprir a missão e difundir a Boa Nova de Cristo ressuscitado senão por meio do serviço, a diakonia. Seguimos assim o exemplo do próprio Cristo, que se entregou inteiramente "pela vida do mundo". Mas o nosso serviço será ainda melhor quando os cristãos tiverem restabelecido a plena unidade na comunhão das Igrejas".

A Igreja Católica está prestes a celebrar um Sínodo dedicado à região de Pan-Amazônia, um grande recurso verde para a nossa "mãe terra". O senhor sempre foi particularmente sensível à questão da salvaguarda da criação. Por que é importante que se propague essa sensibilidade e o que os cristãos podem fazer juntos para ajudar concretamente nesse caminho?

"A proteção do nosso ambiente natural é um compromisso prioritário para o Patriarcado Ecumênico há mais de trinta anos. As razões são ecológicas, mas também teológicas. A criação é um dom de Deus para toda a humanidade. É na criação, na qual os seres humanos participam, que a graça salvadora de Deus é realizada para a salvação do mundo. Assim, sempre fomos particularmente apegados à ideia de que a destruição da natureza é antes de tudo uma questão espiritual e um pecado. Eis porque a resposta deve ser também espiritual. Rezamos pela criação em cada liturgias. Rezamos em particular pela proteção do ambiente todo dia primeiro de setembro. A oração é essencial, mas é somente um primeiro passo. Os cristãos devem se empenhar no desenvolvimento de uma ecologia espiritual baseada no tema da conversão. Muitas vezes ouvimos a questão da conversão quando falamos, por exemplo, do Sacramento da Confissão. É a mesma coisa aqui. Se a destruição do meio ambiente é um pecado, não podemos protegê-lo sem converter-nos. Porque é da conversão dos corações que virá a consciência de nossa responsabilidade. Na tradição cristã, temos os meios para pensar e influenciar a transformação de nossos modos de vida: o culto, o ascetismo, o jejum e as ações de caridade".

As florestas da Amazônia foram recentemente devastadas por incêndios ...

"Rezamos com intensidade  de coração pela floresta amazônica, cuja destruição é mais do que uma catástrofe, é uma desgraça. O impacto desses enormes incêndios poderá ter consequências por gerações, afetando a terra, as infraestruturas e os seres humanos. Há uma necessidade urgente de mudar nossas práticas e nosso estilo de vida, porque esses fenômenos extremos nos forçam a considerar a fragilidade fundamental da natureza, os recursos limitados de nosso planeta e a sacralidade única da criação".