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A ternura da família de Nazaré

Comentário da imagem de São José que adormenta em seus braços o Menino Jesus recém-nascido para deixar a Virgem Maria repousar. A imagem tornou-se um ícone deste Natal depois que o Papa referiu-se à ela na Audiência Geral. Uma imagem que não é insólita, porque no decorrer dos séculos está presente em várias obras de arte cristã

Vatican News | Sexta, 03 Janeiro 2020 11:20
A ternura da família de Nazaré Vatican Media

São José faz o Menino Jesus adormecer em seus braços para deixar Maria repousar. A criança fecha os olhos e estende os braços para cima, descansados, enquanto o pai cuidadoso sorri. É a imagem que acompanhou muitos fiéis neste santo Natal, depois que o Papa falou durante a Audiência geral e a mídia vaticana divulgou a foto. Uma cena de vida diária, terna e realista, na qual muitas famílias se reconheceram. Evidencia ainda mais o mistério da Encarnação. Um nascimento fora do comum: uma mãe virgem, “filha do seu Filho” e um pai que não participou da concepção. Também uma mãe cansada depois da longa viagem até Belém. E um pai que logo se afeiçoa, como todo pai, ao recém-nascido; amando realmente a sua esposa não espera os movimentos de emancipação do século XX para participar dos afazeres domésticos por isso tranquilamente cuida da criança para que Maria repouse. Porque Maria é livre do pecado original, mas não das fadigas da maternidade, das alegrias e das dores de ser mãe.

Os Evangelhos na sua casta sobriedade não narram detalhes desta cotidianidade, justamente porque, no fundo, não eram muito diferentes de outras famílias modestas da época. Porém a arte cristã no decorrer dos séculos, tentou imaginá-los, confortando a devoção popular. E assim descobrimos que a imagem divulgada pelo Papa não é tão insólita e “moderna” como pensamos.

O Fitzwilliam Museum de Cambridge, guarda um Livro das Horas francês de 1450. Em uma belíssima miniatura está representado São José sentado no chão, na gruta: segura amorosamente a criança recém-nascida em seus braços, enquanto Maria repousa e lê um livro de orações.

No Museu Mayer van den Berg, em Antuérpia, na Bélgica, pode-se admirar uma outra cena comovedora: Maria está na cama, José sentado no chão corta suas meias para fazer faixas e vestir a criança, para protegê-la do frio, é emocionante o pé do pai que fica descalço. A pintura holandesa, é aproximadamente do ano de 1400. Em outra representação José diz com muita doçura à Virgem: “Maria, pegue as minhas meias e cubra a tua criança”.

Na arte alemã e flamenga entre os séculos XIV e XV pode-se encontrar São José atarefado em vários trabalhos domésticos: aquece as roupas do recém-nascido, cozinha para a pequena família, assopra o fogo para manter o calor na gruta de Belém. Em um altar boêmio da metade do século XIV, pintado pelo anônimo mestre de Hohenfurth, José derrama água em uma tina, prepara o banho para Jesus junto com uma parteira, enquanto Maria na cama começa a despir o Menino.

Um marido “moderno”? Estamos em 1350. Um século antes, na Catedral de Chartres, uma imagem em alto-relevo de pedra mostra São José cuidadoso cobrindo Maria que está deitada, tendo ao seu lado o Menino na manjedoura.

Imagens humanas da mais sagrada das famílias. Na sua cotidianidade que toda a família pode se identificar e encontrar consolo. Um divino unido demais ao humano, que escandalizava nos primeiros séculos os grupos docetistas.

Segundo o docetismo, a humanidade de Cristo era apenas aparência, o seu corpo não era um verdadeiro corpo humano, mas algo etéreo; também consideravam ficção a sua vergonhosa e intolerável morte na cruz (diziam que no seu lugar tinha sido colocado Simão Cirineu) porque Deus não podia sofrer daquele modo, eu seja, não podia ser um de nós. Também Santo Agostinho era docetista antes da conversão, mas depois tornou-se um crítico intransigente da doutrina. De Jesus dizia: “Totus Deus, totus homo... (todo Dio, todo homem)”. E nos seus escritos recordava: “O Evangelho não diz: a carne se fez Verbo, mas o Verbo se fez carne”.

Dúvidas intelectuais pomposas. Para o povo dos humildes, o santo povo de Deus, a humanidade misteriosa daquele menino, a fé de Maria e a ternura dedicada de José, sempre foram e ainda hoje são motivo de maravilhamento, de comoção e esperança.