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Exortação: os sonhos de Francisco para a Amazônia

A Exortação de Francisco sobre a Amazônia reflete um longo caminho sinodal. O Papa com os seus “sonhos para a Amazônia” lança a aplicação das orientações sinodais.

Vatican News | Terça, 18 Fevereiro 2020 08:55
Exortação: os sonhos de Francisco para a Amazônia Vatican Media

A Exortação Apostólica “Querida Amazônia” do Papa Francisco assinala um longo caminho que teve o seu ponto mais mediático no Vaticano de 6 a 27 de outubro do ano de 2019 numa Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica. O tema foi “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

A escuta da Amazônia

Um Sínodo, tal como aponta o Papa Francisco na Constituição Apostólica “Episcopalis Communio”, deve começar com todo o percurso de preparação. E assim foi para a Amazônia. Um caminho de escuta das realidades concretas.

O Sínodo para a Amazônia foi convocado a 15 de outubro de 2017 e nos dois anos decorridos até ao encontro no Vaticano teve lugar um longo trabalho de escuta. A escuta das bases e das realidades possibilitaram a elaboração do instrumento de trabalho, o “Instrumentum Laboris”, documento que fecha a primeira fase de um Sínodo.

Uma escuta que foi feita numa região muito vasta como é a amazônica. Com mais de 7 milhões e meio de quilômetros quadrados, mais de 3 milhões de indígenas, 390 povos e nacionalidades que foram escutadas. Uma região que sofreu o drama dos incêndios em 2019 e que sofre há décadas uma autêntica “devastação ambiental”.

Francisco na sua Exortação recorda no número 11 uma das vozes ouvidas no Sínodo que relatava, em modo muito concreto, todo o sofrimento dos povos amazônicos:

“Estamos sendo afetados pelos madeireiros, criadores de gado e outros terceiros. Ameaçados por agentes econômicos que implementam um modelo alheio em nossos territórios. As empresas madeireiras entram no território para explorar a floresta, nós cuidamos da floresta para nossos filhos, dispomos de carne, pesca, remédios vegetais, árvores frutíferas (…). A construção de hidroelétricas e o projeto de hidrovias têm impacto sobre o rio e sobre os territórios (…). Somos uma região de territórios roubados” – pode-se ler no documento do Papa citando a Rede Eclesial Pan-Amazônica.

No texto desse instrumento de trabalho estava escrito que devia ser feito um caminho não apenas sobre a Amazônia, mas com a Amazônia. Para que o caminho sinodal fosse verdadeiramente vivido caminhando juntos. Esta intenção foi bem patente durante a segunda fase do Sínodo, na Assembleia Sinodal que decorreu em Roma em outubro de 2019. Uma fase que se conclui agora com a Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa.

Os sonhos do Papa

Com a Exortação Apostólica “Querida Amazônia” o Santo Padre abre uma janela para o futuro da Amazônia formulando quatro sonhos. Um sonho social, um sonho cultural, um sonho ecológico e um sonho eclesial. Sonhos para um “todo plurinacional interligado” que inclui Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa. É a terceira fase do Sínodo.

Sonho social

O primeiro sonho do Santo Padre para a Amazônia é social. Diz o Papa na sua Exortação: “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida”.

Francisco propõe o “diálogo social” como o método “para encontrar formas de comunhão e luta conjunta”. Um diálogo que comece “pelos últimos”, pois são eles os “principais interlocutores”. “A sua palavra, as suas esperanças, os seus receios deveriam ser a voz mais forte em qualquer mesa de diálogo sobre a Amazônia” – declara o Papa.

Sonho cultural

Para a Amazônia, Francisco, tem também um sonho cultural: “… uma Amazônia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana” – diz o Papa.

O Santo Padre sublinha a importância de serem cuidadas as raízes dos povos da Amazônia, autêntica “riqueza cultural”, transmitida oralmente, com os seus “mitos, lendas e narrações”.

O Papa propõe a necessidade do encontro intercultural, mas lembra que “em qualquer projeto para a Amazônia, é preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social (...) requer, constantemente, o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura” – escreve o Papa.

Sonho ecológico

“Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas” – é com estas palavras que o Papa resume o seu sonho ecológico para a Amazônia. Um sonho que se conhecia desde o início, pois, Francisco sempre afirmou que este Sínodo para a Amazônia era filho da Encíclica Laudato Si.

Um sonho ecológico “feito de água” – escreve o Papa referindo-se ao grande rio Amazonas: “o seu eixo principal é o grande rio, filho de muitos rios” – escreve Francisco.

O Santo Padre salienta a importância da Amazônia para a vida no planeta e afirma que “para cuidar da Amazônia, é bom conjugar a sabedoria ancestral com os conhecimentos técnicos contemporâneos, mas procurando sempre intervir no território de forma sustentável, preservando ao mesmo tempo o estilo de vida e os sistemas de valores dos habitantes”.

O Papa propõe uma ecologia integral para a qual não basta as componentes técnicas, políticas, jurídicas e sociais, mas também, o aspeto educativo, que provoque “o desenvolvimento de novos hábitos nas pessoas e nos grupos humanos” – afirma Francisco.

Sonho eclesial

“Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos” – é com estas palavras que o Papa assume um sonho eclesial para a Amazônia. Um sonho feito de “inculturação” social e espiritual feito com “amor ao povo cheio de respeito e compreensão”.

Francisco destaca a importância da presença da Eucaristia, “fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente” e que nos leva “a ser guardiões da criação inteira”. O Papa lembra que os Sacramentos não devem “ser vistos como separação da criação, pois constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural”.

Para a vida das comunidades o Papa sublinha a importância dos sacerdotes, dos diáconos permanentes e dos leigos, mas, muito particularmente, das mulheres, pois foi “graças à presença de mulheres fortes e generosas” que a Igreja se manteve “de pé nesses lugares”. “Batizaram, catequizaram, ensinaram a rezar” – sublinha Francisco.

Nota importante do Santo Padre para a convivência ecumênica e inter-religiosa numa Amazônia “plurirreligiosa” onde se devem encontrar “espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum e a promoção dos mais pobres” – escreve o Papa.

Com a Exortação Apostólica “Querida Amazônia” o Papa Francisco registra os seus “sonhos” para aquela região do mundo e lança a aplicação das orientações sinodais, terceira e última fase da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica.

Um Sínodo que foi lançado em outubro de 2017, teve a sua magna reunião em Roma em 2019 e cujo tema foi “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Laudetur Iesus Christus